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Quem já está no mercado há alguns anos já deve ter percebido a força do "efeito gangorra" no mercado de TI. Também conhecido como "Teoria do Pêndulo", o efeito descreve as "idas e vindas" do mercado. Um exemplo típico é a eterna gangorra entre a TI centralizada (personificada nos mainframes) e a TI descentralizada. Outro exemplo é o movimento cíclico entre o "outsourcing" e o "insourcing" de serviços de TI.

Esse tipo de efeito acontece com praticamente todas as tecnologias, mudando apenas a escala de tempo. Partindo da premissa de que novas tecnologias permitem ganhos de produtividade e melhoria dos negócios, a lógica é a seguinte:

1. Quando uma tecnologia nova surge, ela é cara e complicada. Somente grandes empresas podem investir (com raras exceções).

2. A nova tecnologia começa a trazer ganhos de produtividade. As grandes empresas ganham terreno, as pequenas empresas sofrem.

3. Surgem "players" para fazer o "outsourcing" da nova tecnologia, aproveitando a economia de escala. As grandes empresas terceirizam para cortar custos (e ganhar ainda mais produtividade). As médias empresas começam a adotar a novidade dessa forma.

4. O mercado de grande porte fica saturado. Os grandes fornecedores percebem que a oportunidade de crescimento está no mercado de pequeno porte, e lançam versões menores. Em paralelo, surgem versões mais simples e baratas da tecnologia (por exemplo, em código aberto), que são adotadas por empresas pequenas, mais dinâmicas e com maior disposição ao risco. A aposta começa a dar resultado, e essas pequenas empresas tem grandes ganhos e um grande crescimento.

5. A tecnologia se populariza (vira "commodity") e deixa de ser um diferencial. Praticamente todo mundo já adotou, quem não adotou ficou para trás. A essa altura muitas empresas percebem que podem fazer o "insourcing" da operação, porque a conta do serviço terceirizado deixou de ser interessante. O ciclo se repete.

Entender esse ritmo de pêndulo é fundamental para entender as tendências de mercado. Obviamente, as coisas na realidade não são tão simples, mas as linhas gerais são claramente perceptíveis. A tecnologia que hoje parece inatingível para as pequenas empresas vai chegar lá daqui a alguns anos. Entender esse ciclo é uma grande forma de se posicionar para boas oportunidades de mercado.

* Uma observação importante diz respeito ao item (1): algumas vezes, a nova tecnologia pode ser usada por empresas pequenas. Isso subverte o ciclo e causa grandes transformações, altamente disruptivas. O surgimento do PC foi um desses fenômenos, bem como o crescimento da Internet. Na minha visão, esta é uma exceção que prova a regra, pois essas tecnologias disruptivas em geral são fruto do passo 5 - "comoditização", que ocorre quando uma tecnologia desenvolvida para outros fins viabiliza a produção em massa, como foi o caso do PC, e mesmo da Internet.

Tags: competitividade, futuro, tecnologia

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Carlos Ribeiro Comentário por Carlos Ribeiro em 30 outubro 2008 às 8:51
Edmar, nessas questões* ainda acredito no mercado. Se houver demanda o preço cai. Se não cai, tem sempre um motivo claro. Geralmente é porque não há demanda suficiente - se houver, as regras do capitalismo dizem que o fornecedor terá o maior interesse em aumentar a escala e reduzir o custo, sempre na busca da eficiência. As exceções que eu consigo me lembrar agora são duas: (1) monopólio (ou oligopólio), quando o preço é mantido artificialmente alto por estar na mão de um só fornecedor (ou de um grupo pequeno e organizado); e (2) restrição física de recursos, como materiais raros e coisas do tipo.

* digo "nessas questões" porque até os mais liberais dos liberais, como o Alan Greenspan, hoje admitem que o mercado não é tão mágico e milagroso como eles supunham...
Edmar Comentário por Edmar em 29 outubro 2008 às 19:11
Huum tags RFID você disse... Vi um cara tempos atrás que implantou um tag na mão e usa para controlar a arma dele (??) e abrir a porta do carro... no hackaday de vez em quando tem posts sobre pessoas que fizeram coisas assim... Mas de fato nem TODAS as tecnologias que se aplicam nas empresas se aplicam para o consumidor final digamos assim, mas penso que boa parte delas não tem grande adoção pelo auto preço das soluções se a gente pensar que cada profissional é uma empresa no final das contas podemos ver que há um grande mercado potencial para transportar coisas de empresas para a esfera mais pessoal.
Carlos Ribeiro Comentário por Carlos Ribeiro em 29 outubro 2008 às 9:45
Edmar, você deve levar em conta que nem toda tecnologia, por mais comoditizada que esteja, chega aos lares, porque isso depende também da necessidade e do interesse das pessoas.

Por exemplo, digamos que os tags RFID se popularizem, custando 1 centavo cada em grande volume. Nesse momento qualquer mercearia de esquina pode usar RFID para controlar as vendas. Mas será que vamos usar essa tecnologia em casa? Talvez as pessoas cheguem ao ponto de ter um leitor RFID na despensa, ou na porta da geladeira. Mas elas iriam comprar tags? Será que existirá uma aplicação?

Digo isso, e é importante, porque a comoditização traz os custos para baixo, mas não garante penetração no mercado consumidor final. É preciso que haja uma combinação de necessidade, baixo preço, e "usabilidade", para que uma tecnologia se torne realmente popular. Isso não invalida o ciclo em si.
Edmar Comentário por Edmar em 29 outubro 2008 às 1:36
Uma coisa sobre o passo 5 - "comoditização", o foco do post foi mais para as empresas mas e as tecnologias para indivíduos ? Uma tecnologia pode virar commodity no que diz respeito a empresas mas ainda ser inviável para o consumidor comum... uma tecnologia que migra do mundo das empresas para os lares seria um passo 6 ou ainda estaria no passo 5 ? Ou poderíamos dizer que ai o ciclo se repete mas dessa vez para os consumidores finais ?
Carlos Ribeiro Comentário por Carlos Ribeiro em 22 outubro 2008 às 23:19
Nuba, obrigado pelo comentário. Também gosto do trabalho do Gartner, e de um tempo para cá tenho tido oportunidade conhecer melhor o trabalho deles. O hype cycle com certeza influencia esse pensamento. Porém há uma diferença importante. O hype cycle descreve o ciclo de vida de uma tecnologia. Já o "efeito gangorra" não se refere a uma tecnologia em particular, mas a uma idéia ou conceito que aparece de tempos em tempos, mascarado sob a forma de uma "nova tecnologia". Um exemplo é o SOA. Quantas vezes já ouvimos falar de interfaces entre sistemas, cada vez com um nome diferente? Como diz o Donald Feinberg (analista emérito do Gartner), para ele SOA é a mesma coisa que "subrotina", que era o termo usado nos anos 60 para descrever o mesmo conceito básico (ainda na era dos mainframes). Ficou mais claro?
Nuba Princigalli Comentário por Nuba Princigalli em 22 outubro 2008 às 18:40
Post interessante, mas dou a dica de que essas fases no ciclo de vida de uma tecnologia, conceito, ferramenta, etc. são melhor explicados nas pesquisas do tipo Hype Cycles que a Gartner produz. Aviso também que não tenho nenhum vínculo ou relação com a Gartner, só consumo as pesquisas deles :D
Camilo Ribeiro Comentário por Camilo Ribeiro em 21 outubro 2008 às 11:25
Muito bom,

Parabéns, acho que foi um dos melhores "artigos" que li no mundo.it (se não foi o melhor).

Essa questão da gangorra é aplicável a vários seguimentos (tecnologia, serviços, mercado) e também funciona ao contrario como no caso do Bug do Milênio, onde uma tecnologia "ultrapassada" (com profissionais “saturados”) era necessária e os profissionais que antes só pensavam em se atualizar viram uma ótima oportunidade de trabalho.

Seria esse um exemplo de quando a "gangorra" volta?
Carlos Ribeiro Comentário por Carlos Ribeiro em 21 outubro 2008 às 7:40
Edmar, é bem por aí mesmo. É um ciclo contínuo. Ocorre que algumas tecnologias, por sua própria natureza, demandam planejamento e coordenação, com um processo de implementação mais complexo e também mais caro. É o caso de sistemas de grande porte (ERPs, CRMs), inovações em processos de negócios, etc. Enquanto isso, outras tecnologias tem aplicação tática imediata. É o caso dos PCs, de aplicativos como planilhas e editores de texto, etc. Um outro caso interessante é o "boom" da Internet nos anos 90, que na verdade decorreu de uma conjuntura tecnológica: PCs em casa, telefonia razoavelmente consolidada, demanda crescente por informação e comunicação. Essa conjuntura fez com que o crescimento da Internet comercial atropelasse todas as etapas, chegando rapidamente ao "passo 5".
Edmar Comentário por Edmar em 20 outubro 2008 às 20:03
Grande post !

Acredito que outra coisa aconteça em paralelo com o "passo" 5 do seu esquema de pendulo, por muitas vezes essa tecnologia comoditizada(humm, será que isso existe ?...rsrs) se torna base fundamental da próxima tecnologia que vai para o passo 1, por exemplo graças a comoditização de componentes eletrônicos foi possível os PCs ganharem espaço nos lares, o que por sua vez tornou possível a Internet se expandir, se a Internet não tivesse se expandido muitas das aplicações "web 2.0" (desculpa pelo clichê Diego !) não seriam possíveis.
Diego Gomes Comentário por Diego Gomes em 20 outubro 2008 às 11:10
Cara, isso não foi um post, foi uma iluminação! Faltava mesmo alguém pra pegar esse ciclo e descrever de um jeito claro e analítico. As pessoas entendem a idéia geral, meio que por feeling, mas nunca tinha visto essa análise 100% racional. Bacana ter trazido o papo pra cá...

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