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Carlos Ribeiro

O código aberto ganhou a batalha... mas não a guerra

Os últimos anos foram bem ricos para os proponentes do código aberto. Após anos batalhando para ganhar reconhecimento pela sua qualidade e pela seriedade dos projetos, chegamos a um cenário radicalmente diferente. Isso é visível porque os modelos de negócio estão sendo modificados, tudo em consequência da aceitação pelo mercado de que os sistemas baseadas em código livre são em muitos casos melhores, ou pelo menos equivalentes, aos sistemas tradicionais. Mas essa é apenas a primeira parte de uma longa guerra, na qual o código aberto ganhou apenas uma batalha.

É importante reconhecer que a situação como um todo mudou. Primeiramente, existe a divisão entre código "livre" e código "aberto". Não é exatamente a mesma coisa. Hoje, o mercado aceita bem o conceito do código "aberto", que pode ou não ser "livre". Isso é fruto de uma postura pragmática das empresas de código aberto. Existem modelos de negócio viáveis para as empresas dispostas a apostar em um licenciamento duplo (com opção de licença aberta ou de licença comercial).

Dentro desse cenário, as mudanças que estamos vivendo são profundas e estão só começando. Segundo o Gartner, em diversos segmentos as ferramentas abertas são uma escolha superior às ferramentas proprietárias - mesmo para algumas aplicações de missão crítica (caso do Linux, nos dias de hoje, e do MySQL em até dois anos). Dentro da mesma linha, o Gartner também indica que o modelo de licenciamento de software atual será totalmente alterado nos próximos anos. Não faz mais sentido pagar os valores cobrados pelo mercado, pois existem alternativas. Além disso, a virtualização muda completamente o conceito da licença, e já está afetando decisões de negócio importantes.

A única das grandes empresas de software que se mantém avessa ao conceito é a Microsoft. Parece ser uma resistência mais ideológica do que prática, pois ela tenta combater essa tendência com as ferramentas de que dispõe - basicamente, termos de licença e política comercial. As ferramentas de virtualização são um dos focos, com licenciamento agressivo, mas ainda com muitas "pegadinhas" que limitam a liberdade de uso para funções como mover VMs, reaproveitar licenças, etc. Em outra frente, foi anunciado um programa de licenciamento gratuito dos aplicativos da família Dynamics para "startups". Os termos ainda são bem seletivos - faturamento mínimo de US$ 1 milhão por ano! - o que indica que a lição ainda não parece ter sido 100% aprendida. A se manter nessa linha, o isolamento da Microsoft tende a aumentar, e isso eventualmente terá um preço para a empresa - não interessa o quão grande ela seja.

As mudanças estão acontecendo, mas a guerra não acabou. Ainda há muito que discutir na fronteira entre o código aberto e seu primo mais forte, o código livre (conforme defendido pelo Richard Stallman). Também há questões importantes no uso de código aberto em provedores de serviços estilo "SaaS" ou "cloud". Muita coisa ainda deve acontecer, dentro de uma evolução constante, que deve muito à comunidade mundial de software livre/aberto.

Tags: códigolivre, licenciamento, microsoft, opensource

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Wanderson Santos Comentário por Wanderson Santos em 13 novembro 2008 às 19:02
Toda vez que alguém cita a palavra "progresso" eu entro em um loop ideológico... ;-)
Carlos Ribeiro Comentário por Carlos Ribeiro em 12 novembro 2008 às 15:30
Anderson,

Sobre sua pergunta, eu aceito a regra do jogo. Se você teve a idéia um dia antes de mim, parabéns, VOCÊ GANHOU, os louros vão para você, e EU PERDI. Afinal de contas, ficamos 20 anos pesquisando e investindo milhões, para quê? Para ajudar a humanidade ou recuperar o capital investido? Dentro de um sistema capitalista, a segunda opção é a resposta. E quem investe sabe que se ganhar, terá retorno X sobre o capital. Se perder, perde tudo.

Muitas invenções demandam MUITO dinheiro para serem criadas. Se o sistema fosse como você propôs, não haveria incentivo econômico para inovação, somente incentivo "idealista". E na história da humanidade, sabemos que isso não funciona, que o idealismo não traz progresso na mesma medida em que um sistema baseado no incentivo econômico traz.

Outro risco é a questão ideológica. A única entidade que tem dinheiro para investir em algo sem esperar retorno econômico é o governo. Assim, em uma visão idealista, o governo poderia investir em pesquisa para desenvolver novas soluções. Mas aí entra uma cilada política e ideológica. Somos humanos. Esse dinheiro todo iria ser dispersado em favorecimentos de A, B ou C, ou em disputas ideológicas, favorecendo linhas de pesquisa poucas promissoras não pelos seus méritos técnicos, mas porque fulano é amigo de sicrano, ou porque os dois são do mesmo time, do mesmo clube, da mesma escola, da mesma igreja, etc.

Para termina, não tenho muita esperança de convencer ninguém dos meus argumentos. Mas gostaria que você pensasse que o mundo é bem mais complexo do que você imagina, e que para cada um idealista, temos 'N' pessoas pensando em motivos particulares para fazer as coisas. É a realidade, não adianta querer mudar o mundo, temos que aprender a viver nele. E acredite, não é tão ruim assim.
Humberto Massa Comentário por Humberto Massa em 12 novembro 2008 às 15:20
Mas todo proponente de um modelo deve ater-se ao modelo que propõe, você não acha, Anderson? Até porque se eu sou proponente da teoria de "LQG", normalmente eu vou entender o mundo segundo a ótica do "loop quantum gravity" e não das "superstrings"... Veja bem, "Open Sourcers" não saem do seu modelo também ("Open source is a development method for software that harnesses the power of distributed peer review and transparency of process. The promise of open source is better quality, higher reliability, more flexibility, lower cost, and an end to predatory vendor lock-in.", segundo a página do opensource.org), e a Microsoft não sai do seu modelo de software proprietário, e a Apple não sai do seu modelo de eu-quero-controlar-tudo-o-que-você-faz também.

É aquela coisa: "você já parou de bater na sua esposa, sim ou não?" Egoísmo e seu amigo egocentrismo fazem parte do comportamento humano, como você mesmo falou, mas eu acho fora de questão dizer que o modelo meritocrático (na verdade, pop-ocrático como todos os outros, mas onde a popularidade vem de pelo menos algum mérito técnico) de desenvolvimento do software livre gere mais dessas mazelas do que o que acontece em fábricas de software proprietário ou em outros meio-termos por aí... É minha opinião que são características da natureza humana, que podemos mitigar com os séculos mas nunca fazer desaparecer. Esses "sentimentos com os quais sinto repulsa profunda e acompanho isso todos os dias nas listas de discussões, nos congressos, nas falas e nos projetos ditos software livre" estão nas feiras de software proprietário, nas salas de reuniões da Oracle, da Microsoft e da ZéDaEsquinaTech. Não existe movimento perfeito porque "ser humano perfeito" é um oxímoro.

Agora, é (novamente) minha opinião que o modelo "cobrar pela replicação do software" possui graves distorções e que o mercado fica melhor se o referido modelo ocupar o mínimo possível de espaço, e de preferência, zero. Essa é uma posição que não admite ser discutida, pois não há consenso ou compromisso possíveis nos próprios termos.

Daí a idolatrar o RMS e ter um pôster dele seminu sobre a cabeceira da cama tem uma distância enorme. Mas achar que ele tomar ou não tomar banho afeta de alguma maneira a qualidade e/ou a aplicabilidade do GCC, do EMACS, do projeto GNU ou mesmo da GPL é simplesmente o "menos infinito" na escala do bobajômetro.

Quanto à sua última pergunta, eu não sei se isso existe mesmo (colaborei com o projeto Debian durante uns dois anos, e não procurei um @debian.org porque sabia que eu não teria tempo para me dedicar ao projeto como acharia necessário e digno de um DD), mas posso crer na sua palavra e abaixar a cabeça e dizer "tsc, tsc, que bobagem".
Anderson Goulart Comentário por Anderson Goulart em 12 novembro 2008 às 12:05
Olá Humberto,

Perceba que meu texto se encaixa perfeitamente no link que você mandou... olhe a chamada apelativa do link "words to avoid".
http://www.gnu.org/philosophy/words-to-avoid.pt-br.html

Não quis dizer que o RMS seja anti-capitalista. Se entenderam isso me expressei mal. Eu quis dizer que ele é mais um proponente de um modelo e como tal ignora qualquer tentativa de consenso/discussão entre quaisquer outro. A sua inflexibilidade é a chave da discussão.

Quando eu falava sobre venda de software me referia ao modelo de reprodução marginal, o qual você comentou que o RMS é contra e inflexível: "fazer com que o modelo "cobrar pela replicação do software" desapareça do mercado" (MASSA, 2008).

Portanto, demonstro minha satisfação com algumas idéias do RMS, mas não consigo idolatrá-lo pelo que fez e faz, assim como não o faço em relação a Karl Max, Platão e Nietzsche, os quais também admiro. Pode-se dizer que eu mudei de opinião e comportamento nos últimos anos. Há algum tempo eu considerava Free Software as in Free Speech a melhor coisa do universo, mas percebi alguns pontos os quais me fez desacreditar na perfeição do movimento e, muitas vezes, até "nojo", com o perdão da palavra. O egoísmo, individualismo, egocentrismo, tudo isso exacerbado pelo movimento meritocrático foi criado dentro dessa construção colaborativa. São sentimentos com os quais sinto repulsa profunda e acompanho isso todos os dias nas listas de discussões, nos congressos, nas falas e nos projetos ditos software livre. O grande problema dos "grandes modelos" é o fato de todos eles ignorarem o comportamento humano. A idéia da colaboração é, a partir de uma visão Kelseniana, "perfeita", mas se esqueceram que isso é a base para o surgimento dos sintomas supra citados.

Um exemplo prático: quantos não queriam ter um @debian.org somente pelo status que isso lhe oferece? E quantos não trabalham só para isso?


Abraços,
Global
Anderson Goulart Comentário por Anderson Goulart em 12 novembro 2008 às 11:42
Carlos,

Discutir justiça* é algo mto abgrangente, porém interessante....

Entretanto, não concordo com essa acepção sobre a valorização inventiva mesmo que os prazos sejam reduzidos. Eu compreendo a época da criação das patentes e acho mais absurdo ainda o momento em que foram criadas (o qual as invenções estavam a pleno vapor para a época).

Eis minha opinião: uma patente se refere a um método inventivo capaz de ser reproduzido industrialmente. Isso no conceito legal brasileiro. Eu considero que todo método inventivo é alcançado a partir de um conjunto de conhecimentos adquiridos previamente, sejam eles matemáticos, físicos, históricos, comportamentais, etc, adicionados os novos elementos caracterizados por pesquisa e/ou raciocínio do ser humano. Ou seja, na minha concepção, não se cria uma lâmpada "do nada", sem haver pesquisas ou estudos sobre elementos essenciais. Há uma necessidade/hipótese e uma busca pela solução (método puramente construtivista). A partir da invenção da lâmpada, foi possível aprimorar este processo e criaram lâmpadas com menor consumo. Perceba neste contexto que, se alguém inventar algo ele pode guardar o segredo para si, como a Coca-Cola o faz. E até hoje ninguém conseguiu cloná-la satisfatoriamente. Isso eu acho plenamente aceitável. O egoísmo faz parte do nosso ser. E ela não proíbe ninguém de descobrir ou clonar seu produto. Se você faz uso dessa proibição, você acaba ficando preso no tempo, sendo impedido de criar novas coisas, o que justamente era o objetivo inicial das patentes. Imagine se alguém patenteia a integral ou o cálculo diferencial? Você pode achar isso absurdo, mas temos tantos exemplos semelhantes como o RSA, GIF, o remédio para controlar o HIV, etc, que não está longe disso acontecer. Todos eles só puderam ser alcançados devido aos estudos de seus antecessores. Esses estudos por serem livres de qualquer proteção fez com que determinada empresa se beneficiasse protegendo o "próximo passo" da cadeia produtiva. Veja com um exemplo como isso pode ser um 'tiro no pé'.

Observe o seguinte cenário: eu e você temos 2 empresas concorrentes. Ambos estão pesquisando a cura para a AIDS faz 20 anos e já gastamos alguns milhões de dólares com isso. Ambos estão próximos da solução. Mas por um motivo qualquer eu, hoje, na minha inspiração transcedental no vaso sanitário tive um insight sobre a solução e patenteio. Você estava tão próximo também que no dia seguinte você consegue alcançar o mesmo resultado pelo seu próprio mérito e esforço. Você acha justo* eu poder explorar por 20 anos e você não ter direito a nada? Que promoção da invenção é essa? E o seu investimento como fica? Prefiro o método da concorrência plena, um liberalismo com regras claras.


* KELSEN, Hans. O que é Justiça.
Carlos Ribeiro Comentário por Carlos Ribeiro em 12 novembro 2008 às 8:51
Anderson, você precisa levar em consideração o cenário em que o conceito de patente foi criado. É fácil argumentar que as idéias são livres em um mundo de software. Porém, no mundo do 'hardware', a coisa é diferente.

Mesmo nos dias de hoje, se você inventa uma geladeira 10 vezes mais eficiente, como é que vai vender isso no mercado? Precisaria de milhões só pra começar, e se a Brastemp copiar sua idéia, vão vender 200 vezes mais e tirar você do mercado. Não é justo.

Antigamente era pior ainda. A coisa mais fácil do mundo era alguém com dinheiro 'piratear' a invenção dos outros, deixando o inventor a ver navios. Isso acontece porque nem sempre o inventor tem grana para bancar a parte física da coisa: fábricas, distribuição, marketing, etc. Com software é diferente.

É por isso que a disputa legal nos EUA em torno das patentes é focada nas patentes de software e de métodos de negócio, que pra começo de conversa, não são patenteáveis em diversos países.

Outro ponto é a questão do prazo. 17 anos é uma herança dos tempos em que cada revolução tecnológica demorava 50 anos pra se firmar. Hoje o ciclo é absurdamente curto, a proteção poderia ser menor. Mas isso é tema pra outra discussão.
Humberto Massa Comentário por Humberto Massa em 12 novembro 2008 às 8:22
Um linquezinho sobre "propriedade intelectual" e outros termos pouco desejáveis: aqui.
Humberto Massa Comentário por Humberto Massa em 12 novembro 2008 às 8:13
Global, eu não sei se é essa a resposta que está na sua cabeça, mas a minha resposta é [2]... com a seguinte ressalva:

O discurso do RMS não é exatamente do jeito que você colocou. Ele _não_ é anti-capitalismo ou anti-enterprise (isso são velhos FUDs microsoftianos). Ele é anti-software-proprietário (modelo de software no qual o que é pago é a cópia ou o uso do software ao invés da produção do mesmo). Ele é pró-"fair-use" (acho que eu linquei para "O Direito de Ler" acima). Mais nada. Tudo o que ele faz é voltado para a produção e promoção de software (incluindo documentos) que respeite alguns princípios básicos, podendo ser utilizado, estudado, redistribuído e modificado por quem o adquire de forma legal. (*)

Mas voltando à resposta da sua pergunta, é claro que "é só mais um modelo" é mais difícil de instigar e de criticar que "software proprietário é estelionato". Polarizações são polarizações exatamente porque não têm meio-termos, e por isso atraem os íons (pessoas): afinal, se você não está conosco... :-)

(*) na verdade, existe mais uma faceta do discurso dele que é: Não existe "propriedade intelectual". Nem legalmente falando. Existem quatro conjuntos distintos de direitos restritos (copyrights, trademarks, patentes e segredos industriais) que não têm nada a ver com os direitos de propriedade. Portanto, não confunda trademarks com copyrights ou patentes ou segredos e não os ponha na mesma panela, muito menos na mesma panela que o direito de propriedade (que é um dos direitos constituídos [lá nos EEUU e aqui no Brasil, pelo menos] menos restritos).
Wanderson Santos Comentário por Wanderson Santos em 8 novembro 2008 às 0:35
Global, (e isso mesmo?)

Este post filosofico e abrangente merece aplausos!

Um olhar mais amplo e menos radical sempre nos traz boas reflexões.

Sempre existirá uma contra-partida a qualquer "sistema" instalado. Até mesmo em uma anarquia, existirá os radicais que querem o controle. Tudo depende de opinião. E opinião é ponto de vista, é principalmente contexto.

Mas voltando ao assunto do código aberto, a liberdade de debugar um código de um terceiro é uma maravilha unânime, porém a liberdade em revender um código de terceiro se tornou uma "backdoor" para grandes empresas que trabalham com modelos de licença, ao capitalizar trabalhos comunitários.

Apesar de tudo, eu estou realmente contente com o rumo do mercado. Atualmente, todos estão procurando dançar as duas músicas que mais tocam, ao invés de forçar somente uma música. Isso traz uma escolha e liberdade de fato.

"Community e Enterprise" são os termos da vez. Quem era Community, passou a dançar Enterprise. Quem era Enterprise, passou a dançar Community.

O mercado está se ajustando, e acredito que pra melhor em todos os lados.

E *como sempre* os radicais não levam os louros, mas, como dito no post anterior, são a força-motriz deste processo humano da "melhoria" contínua.
Anderson Goulart Comentário por Anderson Goulart em 7 novembro 2008 às 10:46
Vixi.. difícil argumentar com tanta coisa boa por aqui..... mas vamos a mais uma opinião singela e mais filosófica do que qualquer outra coisa.

Conheci o Linux em 1996 e o movimento de software livre em 2001. Algo bem distante, mas naquela época não conseguia perceber a distinção das coisas pela minha idade e maturidade intelectual. Portanto já se vão 7 anos de tentativas de compreensão desses modelos oriundos de alguma forma da FSF.

Como todo modelo (seja de negócios, seja o atômico que a gente aprende na escola, seja social) há um momento de idealização e de alguma forma louvor ao seu inventor. Em uma lista não exaustiva: Marx e Weber com seus modelos sociais, Apple e MS com modelos de software proprietário, RMS com seu modelo de SL, Niels Bohr com seu modelo atômico, Galileu com seu modelo de universo, Nietsche e o anticristianismo, Platão contra os sofistas, etc. Poderíamos ficar dias lembrando nomes e modelos que foram geniais e algum tempo depois sofreram as merecidas críticas. Isso para mim é inerente ao ser racional e, por isso, o RMS vem sofrendo críticas como disse o Diego. E mais uma... a minha!

Hoje eu enfrento uma dificuldade de viver em um mundo capitalista, no qual o capital é o seu "regulador" e com uma ideologia (que de alguma forma defendo) que estabelece que não devemos adquirir este capital com o custo de reprodução, marginal, e sim apenas com a produção. Vivo em um comunismo digital. O labor se confunde com o trabalho, mas não pode se misturar com a mais valia. Sinceramente meu cérebro ainda não achou o menor caminho para estas questões.

Um ponto eu defendo como premissa básica para a evolução humana: a liberdade do conhecimento. Não necessariamente isso requer que tudo seja livre. Conhecimento é uma coisa, obra desenvolvida é outra. Quero dizer que se ao estudar as velhas funções matemáticas e descobrir o mesmo método de compressão de imagens usadas no GIF eu quero ter o "direito" de também implementá-la. Não é pelo fato de alguém descobrir antes de mim que eu também não possa fazê-lo. Portanto sou incisivamente contra as patentes. Garantir o direito pleno de exploração por 20 anos de um único fabricante ou pagando-se royalties é ridículo. O liberalismo econômico está aí pra isso. Se você descobriu primeiro, faça um bom trabalho para garantir o seu market share até que outros tb o façam. Não me venha com uma liminar judicial dizendo que sou proibido de fazer um leitor de GIFs. Se o seu leitor for melhor que o meu (usabilidade, estabilidade, etc) você terá mais chances de vender o seu produto. O RMS esquece que as pessoas não são iguais e que os riscos em torno de algumas decisões são inerentes aos ganhos. Porque seria eu um empresário, garantia de impostos pro governo, garantia de empregos, se meus ganhos seriam idênticos ao meu carimbo de assalariado? Vou arriscar minha família, filhos e minha própria sobrevivência se não ganhamos nada com isso? Não haveria motivação... quase todos buscam poder e/ou dinheiro e/ou status. Não somos robôs e não se sinta mal se você quer alguma dessas coisas.Mas defendo uma "luta" sempre justa nessa busca: sem licitações fraudulentas, sem passar a perna em ninguém, sem guerras, sem lobby, sem imposições e sim escolhas, mas garantindo boas condições de trabalho e vida. O que atrapalha nesse meu "modelo" são os idealizadores que criam em torno de si grupos radicais em prol de uma ideologia (vá conversar com um islâmico ou um dissidente do RMS e sinta o que estou falando). É claro para mim que o modelo colaborativo é muito mais prático e rápido para nossa evolução. Por isso contribuo e faço parte das comunidades. E não porque quero acabar com a MS ou algo do tipo. Hoje me sinto mais a vontade com Linux pois como desenvolvedor tenho a liberdade de fazer algumas coisas legais que me seriam proibidas em outros produtos. Se um dia a Apple me conquistar e permitir que eu faça o que eu quero, tranquilamente comprarei seu produto.

O modelo de SL pretendido pelo RMS segue de alguma maneira minha premissa básica, mas o expande dizendo que além do conhecimento temos que garantir que as implementações deste conhecimento também sejam livres. Ou seja o meu leitor de GIF terá de ser exposto. Para não avacalhar a história como fazem os BSDs, pelo menos há uma garantia que essa exposição prevalecerá para sempre, ou seja, não posso mais esconder aquele código caso ele esteja nas mãos dos meus clientes.

Esse último ponto é o catalisador dos modelos SaaS. Diante da impossibilidade de esconder o código, as empresas vendem em seu site um serviço que faz todo o uso do SL adicionando trechos particulares: hosting, gestão de redes, email, etc. Ou seja, o modelo de SL imaginado por RMS foi por água abaixo. O google tem milhares de linhas de código dentro do Linux, mas na máquina deles. De vez em quando eles contribuem com a comunidade com algumas linhas para que sua imagem não fique suja. Abrir ou não o código agora é uma decisão estratégica e não filosófica. Eu acho que a MS já percebeu que manter seus produtos a preços absurdos não compensa. Criou estratégias para vender partes do seu software mais barato e tenta concorrer com as soluções "gratuitas". Mesmo que as pessoas achem que ela está indo contra a maré, ela ainda ganha muito dinheiro com isso e garanto que se ela mudasse seu modelo de um dia para o outro seguindo a filosofia de SL ela iria a falência. Portanto, não basta falar que este modelo de negócios é melhor que o da MS. Prove! Outro dia conversei com um representante da MySQL e ele me disse que a empresa garante 60 a 70% do seu faturamento com licenças. Ou seja, ainda está difícil de largar esse modelo.

O grande problema de todos os modelos e de seus criadores é pensar e tentar obrigar a todos a seguir estritamente seu pensamento. Se não for desse jeito não serve. Marx queria ver a revolução dos proletários, mas será que não tinha outra forma menos agressiva para tal crise? Dificilmente ele aceitaria qualquer argumento assim como o RMS também não. Intolerância. Individualismo. Desprezo. Isso é o que percebo em grande parte dos idealizadores. Mas eu compreendo que se eles não fossem assim dificilmente seriam reconhecidos pela sociedade. Imaginem as duas situações do RMS falando:

1) Olha gente, criei uma idéia legal chamada SL. Com ela você pode fazer coisas legais pois tem acesso a tudo. Quem quiser, venha conhecer. Mas isso é só mais um modelo.

2) As propriedades intelectuais ferem o direito de liberdade. As grandes corporações fazem uso disso para explorar as mentes dos trabalhadores e garantir seus lucros. Vamos acabar com essas práticas adotando o SL e garantindo o acesso à informação antes protegida e manipulada por poucos. Leiam o manifesto GNU.

Qual instigaria mais vc a criticar e/ou fazer parte?


Abraços,
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